4 – Ele tentou entender-se com ela

Ele tentou entender-se com ela sobre a forma como regular as responsabilidades parentais.

Começou com um telefonema, uma vez que o diálogo entre ambos tinha vindo progressivamente a deteriorar-se, sobretudo a partir do momento, em que ele decidiu que para manter a sua sanidade mental, seria obrigado a sair de casa; algo que ela considerou uma afronta, um despeito, um ultraje!

Não teve grandes resultados práticos.

Ela julgava que ele, não conseguia fazer duas coisas ao mesmo tempo, que os homens não têm paciência para crianças pequenas e tudo seria uma questão de tempo até ele se esquecer do seu “bébézinho”, comprar um perdigueiro, um fúsil e ir à caça.

O que tinha ficado combinado entre ambos, numa espécie de acordo de cavalheiros à sua medida, era que ele fosse buscar o filho todos os dias a casa da mãe, no período de tempo em que ela não podia cumprir as suas obrigações maternais, ou seja, das 14h às 19.30 nos dias úteis e um dia de fim de semana, das 10h às 19.30. Era, julgava ela, uma tarefa herculana, impossível de cumprir e tudo seria uma questão de tempo até ele se saturar da cria e ir à caça. Se adicionalmente contasse com a colaboração de mais algumas mães despeitadas que ajudassem a dar uns coices, um advogado habilidoso e sem escrúpulos, os eternos adiamentos da justiça do Reino ajudariam no resto. O Reino sempre foi pródigo em lançar leis mal concebidas e confusas e era sempre possível pegar em alguma delas, sobretudo naquelas que têm o condão perverso, de condenar justos e pecadores. Nada que fosse inusual no Reino. Aliás ele já tinha sido caracterizado, muitos séculos atrás, como uma ilha de lagartos e a justiça pintada assim: “Sabei primeiramente que isto de justiça é coisa pintada; e que tal mulher não há no mundo, nem tem carne, nem sangue…porém como era necessário haver esta figura no mundo para meter medo à gente grande, como o papão às crianças, pintaram uma mulher vestida à trágica, porque toda a justiça acaba em tragédia. Taparam-lhe os olhos, porque dizem que era vesga e metia um olho pelo outro; e como a justiça havia de sair direita para não se lhe enxergar esta falta, lhe cobriram depressa os olhos. A espada na mão significava que tudo há-de levar à espada, que é o mesmo que a torto e a direito”.  

3 – Preparou-se arduamente

Preparou-se arduamente nas tarefas que algumas mães consideram como exclusivas do seu género: comprou uma boneca de plástico e treinou de mil e uma maneiras o método materno único de lhe pegar, testou em si todas as pomadas infantis contra assaduras à venda no mercado, tirou um curso de primeiros socorros, embrulhou-se na culinária infantil, estudou planos de nutrição, deu banho a galinhas, patos e gansos, saboreou todas as chuchas e comeu durante um mês bledines e papa Ceréalac.

2 – Ele achou que podia ser pai

Foi o seu primeiro equívoco. O achar que podia ser pai, algo que nunca foi muito bem definido. Porque é que queria ser pai? não tinha passado pelas agruras da maternidade! sabia pegar ao colo o filho? sabia fazer duas coisas ao mesmo tempo? sabia mudar uma fralda? sabia o que é uma “dodot” ? Entendia alguma coisa de cremes, de assaduras infantis? Pobre homem, o ter achado que podia ser algo para o qual não estava biologicamente preparado. Os amigos ainda lhe disseram: vai à tua vida, homem! pega numa espingarda, compra um perdigueiro e vai à caça! mas ele não percebia nada de caça. Gostava de perdigueiros, é certo, mas abominava andar aos tiros. Perante este dilema decidiu fazer uma escolha, que a irritou profundamente: decidiu também ser um pouco mãe e abdicar de qualquer actividade que podiam levar a pensar que ele era excessivamente masculino. Tinha algum sentido para ele, uma vez que tinha crescido com uma mãe e um pai e tinha recebido a influência de ambos.

1 – Viveram em comunhão

Viveram em comunhão. Partilharam a mesma cama, comeram à mesma mesa, utilizaram a mesma sanita, tiveram um filho e zangaram-se. Nada de anormal, acontece em todos os reinos.

O que não é normal, foram as dificuldades que tiveram para se entender sobre o destino do filho: viveria em casa do pai ou da mãe? dividiria o seu tempo entre que casas?  não sabiam ou tinham opiniões contrárias sobre o assunto: a mãe tinha razões de peso. Carregara com ele nove meses na barriga, os seus pés tinham ficado um trambolho, engordara desmesuradamente e a face ficou coberta de erupções purulentas; quanto a ele, continuava magro. Não tinha argumentos de peso.

Pelo sofrimento por que passou, que encarou como uma dádiva, ela achou que o fruto daquela relação era seu, só seu, e de mais ninguém.

A “história” também lhe dava razão, afinal Maria também tinha engravidado misteriosamente enquanto o José lixava alguns móveis.